sábado, 22 de abril de 2017

Entrevista para o The Guardian



Em entrevista concedida ao jornal The Guardian (22/04), o Paramore revela detalhes sobre os desafios enfrentados ao longo dos anos como banda, entre eles a saída dos irmãos Farro, e os novos rumos que o trio pretende seguir. Confira:



Hayley Williams, vocalista do Paramore e única integrante contínua desde a formação original, mudou-se para Nashville quando tinha 13 anos, depois que sua mãe e seu padrasto se divorciaram. Durante as fases iniciais do pop-punk da banda ela era conhecida por sua cor de cabelo sempre em mudança, mas hoje ela se limita a um cabelo loiro platinado e uma jaqueta de couro. Poderia facilmente ser confundida com uma das estrelas do país moderno que se reúnem para a cidade a cada ano para gravar em seus famosos estúdios.

O Paramore se formou quando Williams tinha 15 anos. Agora ela tem 28 e, basicamente, estes anos nunca foram tranquilos.
De maneira estranha, para uma banda de rock focada no mainstream, com um fundo cristão cuja produção musical é relativamente incontroversa, a banda parece constantemente envolvida em conflitos internos; seria impossível contar as várias reconfigurações do Paramore nas minúsculas páginas deste guia.

O quarto álbum da banda, lançado em 2013, foi um sucesso sem precedentes: alcançou o número 1 nos Estados Unidos e Reino Unido, garantindo a eles as apresentações nos festivais Reading e Leeds como atração principal, e os fez ganhar um Grammy pelo single “Ain’t It Fun”. Eles se tornaram uma das maiores bandas do mundo, mesmo com um passado difícil, no qual o guitarrista e ex namorado de Williams, Josh Farro, e o baterista Zac Farro publicaram uma amarga carta aberta. Ambos saíram da banda mencionando o comportamento controlador de Williams e da gravadora. Uma das piores acusações foi relacionada ao pai de Williams constantemente ameaçar acabar com a banda se os outros integrantes não concordassem com tudo, sugerindo que eles fossem contratados para fazer o “sonho da Hayley”.

“Há dois anos eu perguntei ao Taylor se podíamos começar uma nova banda. Eu estava muito cansada dessa merda” – Hayley Williams

Os membros restantes – Williams, o baixista Jeremy Davis e o guitarrista Taylor York – enfrentavam dificuldades, mas na época disseram ao The Guardian que a nova formação “foi a melhor coisa que poderia ter acontecido” e eles estavam felizes e bem estabelecidos como banda. Parecia que a saga finalmente tinha chegado ao fim e uma nova era triunfante havia começado.

Mas as coisas não funcionaram dessa forma. Há dois anos, Davis saiu da banda e atualmente está os processando em tribunal federal por uma parte maior dos royalties e dos rendimentos de turnê. Ele afirma que Williams concordou que os três iriam compartilhar a autoria de todas as 17 músicas do álbum autointitulado. Williams e York foram creditados como compositores em todas as músicas e Davis ganhou crédito apenas na canção de 70 segundos “Interlude: Holiday”.

Taylor York continuou na banda e, sete anos após sua saída, Zac Farro agora está de volta. Ambos acompanharam Williams ao restaurante, e enquanto estávamos comendo omeletes e comparando vícios em cafeína, você nunca diria que há algum ressentimento entre eles.

Em um momento, Jonathan, irmão mais novo de Farro, conta a ele que irá ter mais um bebê, via FaceTime. Farro não acredita. Ele grita e me passa o telefone. “Mazel tov”, eu digo. Ele passa o telefone a Williams. “Primeiro de abril!!” grita Jonathan e todo mundo começa a rir. Essa é a vibe aqui: pessoas que estão tão confortáveis entre si, que irmãos podem os surpreender com falsas notícias.

Mas como? Como você pode ser tão íntimo de pessoas que publicamente insultou depois de um grande desentendimento? A carta aberta divulgada pelos irmãos Farro acusou o pai de Williams de maltratar os integrantes da banda e o fato da vocalista compor músicas contrárias aos princípios religiosos dos irmãos. Era tudo uma mentira? Ou Zac Farro acreditava nisso na época e agora as coisas mudaram?

Ele diz que tem menos relação com a carta do que parece. Farro tinha apenas 20 anos e, de certa forma, culpa o irmão mais velho pelo rumo que as coisas tomaram. “Eu sou uma pessoa muito leal à minha família e amo eles até a morte”, diz Zac. “Eu concordei com Josh em um monte de coisas que não me afetavam tanto quanto ele… Alguém diria que eu vivia na sombra dele e naquela época eu estava entendendo isso. A maneira que cada um queria deixar a banda era muito diferente”.

Os outros dois membros acreditam também que a decisão era em maior parte de Josh do que de seu irmão mais novo (eles também dizem que Josh tem apoiado muito o retorno do irmão à banda). E Farro diz que sente como se esse tumulto tivesse acontecido em outra vida. “É como aquele podcast Serial. Você sabe aquele primeiro com Adnan [Syed]?” ele pergunta. “Começa tipo: tente lembrar o que você fazia quando era adolescente, tente lembrar o que aconteceu às 10:30 na manhã de quinta. É impossível. Em uma semana, você esquece o que aconteceu”.

Então o problema com Farro é uma lembrança distante, mas a ausência do baixista Davis ainda parece sentida. Contudo, devido a procedimentos legais, a banda diz que não pode falar sobre o motivo de sua saída, ou sobre a disputa de royalties em entrevistas.

“Estarmos sendo processados é uma merda”, suspira Williams. “Eu não estava bem por um tempo, talvez ainda não esteja.”

Taylor York diz que nem ao menos preveu a saída de Davis, pois ele era muito acostumado com a dor do Paramore. “Eu estava em choque”, diz ele. “Era só mais outro drama e outro exemplo de como é difícil estar em uma banda. Nós temos o emprego mais legal do mundo, mas porque isso tem que ser tão difícil?”.

Obviamente, eu digo que não tem que ser tão difícil. Se estar no Paramore é tão difícil, por que não acabar com isso pelo bem de todos?

“Ah sim”, diz Williams, com convicção. “Há dois anos eu perguntei ao Taylor se podíamos começar uma nova banda. Eu estava muito cansada dessa merda. Eu disse que a gente podia só tentar algo novo, dar um novo nome.”

York diz: “Eu quis sair dessa banda muitas vezes. Passar por todo esse conflito e drama ao longo dos anos…. Eu pensei “cara, eu sinto como se a gente não pudesse seguir em frente, isso não vale a pena se nós não queremos estar aqui.”

“Passamos tempo chorando juntos sobre coisas que nunca lidamos.” – Hayley Williams.

Então, se os dois únicos membros restantes queriam que a banda terminasse, por que não? Ninguém pode me dar uma resposta direta a respeito de por que o Paramore acabou decidindo fazer outro disco.

“Sinceramente, eu não sei”, diz Williams quando digo que deve haver alguma coisa, antes de fazer uma tentativa de explicar. “nós, por alguma razão, continuamos compondo aos poucos, as músicas ficaram melhores e ficamos mais inspirados para produzir o álbum.”

As músicas que eles escreveram juntos não soam como as primeiras iterações emo da banda. Algumas você poderia ver como uma evolução do material pop presente no álbum anterior, mas, eles devem mais ao rock dos anos 80 de Paul Simon e Dire Straits. Não é um som qualquer dos anos 80, embora as faixas são ricas de um pop inteligente que qualquer megastar mataria para ter escrito. Em particular, o primeiro single Hard Times, com sua bateria estilo Lionel Richie, vocais em camadas pesadas e ruptura de estilo Daft Punk, você pode facilmente imaginar ser seu maior sucesso até agora.

Ainda assim, mesmo com seu velho amigo de volta e um período criativo fértil, estou frustrado com a falta de explicação da banda em torno do que realmente continua dando errado. Mesmo os títulos das músicas do novo álbum After Laughter: Forgiveness, Fake Happy e Rose-Colored Boy, com seu refrão de “deixe-me chorar um pouco mais”, apontam para uma banda que está constantemente em conflito.

Eu os questionei sobre o que infectou seus relacionamentos. A reticência deles é parcial, talvez pelo fato de que são todos desta cidade, que, em público pelo menos, parece ser um lugar onde se você não tem nada de bom para dizer, você não deve dizer nada. Às vezes, essa bondade do sul pode ser uma barreira para discussões sobre o que realmente está acontecendo, algo que eles admitem ter sido um problema no passado.

Nós crescemos em um ambiente muito conservador”, explica York, “onde você sempre dá espaço às pessoas porque você não quer conflito. Então, se algo te irritou, você não fala sobre isso.” Mas a maior mudança em suas vidas é a mais óbvia: a idade. As primeiras 10 ou 12 vezes que o Paramore teve um desentendimento, eles eram adolescentes. Quando alguém estava infeliz, eles se enfureciam ou, pior, deixavam seus sentimentos serem conhecidos em canais de mídia social. Essa angústia aberta desempenhou um grande papel no sucesso da banda com sua fanbase adolescente, mas também foi um sinal de que eles não tinham os recursos para lidar com as coisas dando errado.

“Se há algo intangível que nenhum de nós pode colocar que é diferente sobre este álbum, eu sinto que há muita aceitação de coisas não sendo… brilhantes”, diz Williams. “Nós todos perdemos aquela coisa adolescente de tentar segurar tanto alguém, não percebendo que você está sufocando. [Quando] você se torna um adulto, você deixa as pessoas mostrarem quem elas são. Passamos mais tempo saindo e rindo fazendo esse disco e chorando juntos por coisas que nunca lidamos antes”.

Esse é definitivamente um processo que eles ainda estão vivendo, mesmo nesta entrevista: a este ponto, o lugar está cheio de festas de despedida e nos mudamos para uma sala privada mais insular. Começa a parecer um pouco como em Mean Girls, onde todo mundo fala sobre seus sentimentos.

Às vezes, o trio reverte para esvaziar banalidades sobre como tudo é bom. Em um ponto, Farro diz: “eu costumava ser, tipo “Wow, o futuro parece tão longe”, agora eu espero apenas poder continuar, pois o futuro é logo ali.” Mas, em outras vezes, uma espécie de escuridão surge. Eu pergunto se eles pensam sobre o que vão fazer quando tiverem seus 50 anos, considerando que a banda é tudo o que eles conhecem. Isso parece instigá-los.

Se eu imaginar meu futuro, é realmente obscuro”, diz York. “Eu não posso nem mesmo procurar isso na minha cabeça. Eu sei que soa estranho, mas acho que tenho ansiedade e medo suficientes sobre o amanhã ou esta tarde.”

Três horas depois de nos conhecermos pela primeira vez, o clima é meio tenso na sala. Eles são realmente adoráveis e gentis, dizem “obrigado” para a entrevista, mas é evidente que para a banda trabalhar no longo prazo, eles não podem apenas fingir estar OK, precisam dizer o que realmente sentem.

“No passado, nossa missão era enfiar garganta abaixo o que nós queríamos que as pessoas vissem. Você sabe: “Somos só nós três agora, estamos indo muito bem!” diz Williams.
“E eu acho que nós não somos mais assim. Estranhamente, eu acho que estamos em um lugar melhor como uma banda do que nunca. Acho que no passado toda essa situação teria nos chateado. Mas eu acho que agora é tranquilo. Quase faz com que seja menor do que realmente é, pois não resistimos mais tanto.”

Repentinamente, eles precisam ir embora. Entram no carro de Williams e irão dirigir quatro horas até Atlanta para assistir o show do Radiohead. Não terão que participar de reuniões ou qualquer coisa do tipo. São apenas companheiros indo ver uma banda. O e-mail de Williams no dia seguinte, conta sobre sua playlist de viagem e o quão legal foi. “Sem surpresas foi irado ouvir ao vivo”, ela escreve “porque eu me lembro de ouvi-los, sentada na parte de trás do carro de Josh com Zac e Taylor e alguns outros amigos enquanto assistíamos os fogos de artifício no dia 4 de julho em 2003.”

É então que entendo o motivo de ainda estarem ligados ao Paramore. Pois as pessoas que estão na banda, as pessoas que estão dispostas a dar entrevistas e trabalhar em problemas, são aqueles cuja amizade resistiu a tudo que foi imposto.

Fonte: Paramore Brasil

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